quinta-feira, 10 de maio de 2012

Comissão de Justiça aprova PEC da Música

Carta Capital


Foi aprovada nessa quarta-feira 9 na Comissão de Constituição de Justiça uma Proposta de emenda à Constituição que isenta de impostos CDs e DVDs com obras musicais de autores brasileiros. Conhecida como PEC da Música, seu objetivo é reduzir o preço dos produtos ao consumidor, desestimulando a pirataria.
A iniciativa dá isenção tributária a CDs e DVDs produzidos no Brasil contendo obras musicais ou literomusicais de autores brasileiros e obras em geral interpretadas por nossos artistas. A PEC também contempla os suportes materiais ou arquivos digitais que contenham essas produções, mas o benefício não alcança o processo de replicação industrial, que continuará a ser tributado.
Em seu voto favorável, o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), relator do projeto, lembrou que se a isenção for efetivada irá assegurar ao setor fonográfico benefícios fiscais já concedidos a livros, revistas e jornais. Para o senador Aécio Neves (PSDB-MG), a PEC vai impulsionar a vendagem e o lançamento de novos artistas no mercado.
Em nome da Frente Parlamentar da Cultura, a senadora Ana Rita (PT-ES) também se manifestou a favor da proposta, observando que a medida pode reduzir os preços de CDs e DVDs em 25%. Os senadores Inácio Arruda (PCdoB-CE) e Francisco Dornelles (PP-RJ) também seguiram a recomendação da Frente Parlamentar da Cultura.
Cantores como Ivan Lins e Raimundo Fagner também se posicionaram favoravelmente à emenda.
Zona Franca de Manaus
A matéria foi aprovada com o voto contrário do senador Eduardo Braga (PMDB-AM). Para ele, há um risco de a desoneração fiscal da produção musical ameaçar a indústria fonográfica e de vídeo instalada na Zona Franca de Manaus. “Nós, do Amazonas, não temos nada contra incentivos à cultura nem aos compositores e intérpretes da música brasileira. Mas acreditamos que a aprovação desta PEC não garantirá o combate à pirataria e não terá os efeitos esperados pelos seus defensores”, argumentou.
O senador também informou que a Zona Franca de Manaus detém 98% da indústria fonográfica e de vídeo e emprega sete mil trabalhadores no setor.
A senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) também ressaltou o temor de que essa isenção tributária venha provocar o deslocamento do parque produtivo de Manaus para outras regiões do país, mais especificamente para o eixo Rio-São Paulo, que concentra 80% dos consumidores desses produtos.
Os senadores Magno Malta (PR-ES), Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), Pedro Taques (PDT-MT), Álvaro Dias (PSDB-PR) e Ricardo Ferraço (PMDB-ES) também deram apoio à proposta, que vai ao Plenário do Senado para votação em regime de urgência.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Doce desespero


Matheus Pichonelli

Carta Capital

Foram dez anos sem se ver. Num encontro de turmas, desses facilitados pelo Facebook, com chácara, churrasco e piscina, notou que ela usava aliança na mão esquerda e esperava um filho. Ele acabava de encerrar um relacionamento de anos que morrera de maduro.
Foi doido por ela por muito, muito tempo: talvez entre os 14 e 17 anos. (Nessa idade, um ano vale por sete, como aos cães). Foram tempos de encontros, cartas, trocas de olhares e confissões. Mas o distanciamento era inevitável: as meninas amadurecem mais cedo, são sempre mais vivas e prontas para serem mulheres enquanto os meninos ainda engatinham no corredor da escola com soquinhos, pontapés e bolinhas de papel (alguns ainda erguem as cuecas dos colegas até o pescoço e saem correndo).
Com os anos, tornou-se um sujeito respeitável, mas ela… bem, ela andava longe do esplendores colegiais – é o que sentenciaria mais tarde o meu amigo. Ainda assim, ao vê-la, confessou ter tido a sensação de voltar a ter novamente 14 anos. No reencontro, passou o tempo todo gaguejante, hesitante, fraco, inseguro, sem-graça e com vontade de sair correndo; enquanto ela parecia ainda reinar absoluta no alto de um pedestal inescapável.
A atriz Michelle William no papel (e na banheira) de Marilyn Monroe

As ironias: o primeiro amor é, de fato, um doce desespero. Quem afirma não sou eu nem meu amigo, mas Sybil Thorndike (a atriz britânica interpretada por Judi Dench em Sete Dias com Marilyn) ao testemunhar o encanto e ansiedade do jovem Colin Clark quando fica a poucos metros de Marilyn Monroe.
Até aí não há grandes novidades: se havia um dom maior que todos os outros em Marilyn era o de ser notada e provocar suspiros por onde passasse. Podia estar em meio a trezentas pessoas, mas era a ela que se endereçavam e se concentravam os olhares. Anonimato para ela era uma palavra simplesmente incompatível. Esse dom raro é o caminho para a destruição, como escreveu Gabriel Garcia Marquez sobre sua Remédios Buendía, a personagem de Cem Anos de Solidão que provocava um “insuportável estado de íntima calamidade” à sua passagem”. Mas Marilyn, diferentemente de Remédios, era consciente “da aura inquietante em que se movimentava”.
No filme de Simon Curtis, ela é observada de perto sem perder a aura. Levada a Londres para filmar O Príncipe Encantado, é pajeada e paparicada o tempo todo. Ainda assim, é invadida por uma crise de confiança e solidão – algo que artistas como ela parecem sempre imunes. Assustada com o ritmo, o lugar, a forma metódica e rude do diretor britânico Laurence Olivier, Marilyn se comporta como um bicho do mato, a quem todos devem manipular para obter o resultado desejado, com remédios para dormir, remédios para acordar e remédios (muitos) para se acalmar.
Nesse turbilhão, ela se apega ao terceiro assistente de direção, o inglês Colin (Eddie Redmayne), o único da equipe aparentemente capaz de olhar em seus olhos sem mentir. O encontro improvável é uma tragédia anunciada.
À medida que a conhece de perto (na primeira vez, sem maquiagem), Colin, que mais tarde ganharia fama escrevendo suas memórias daqueles tempos (o personagem real morreu em 2002), amplia o encanto sobre a excêntrica celebridade americana. Caminha, assim, descalço sobre uma lâmina de espada: Marilyn, ao mesmo tempo que atrai, também ofusca, assusta, consome e expulsa quem estiver ao seu redor – algo que Michelle Williams leva à tela com impressionante semelhança. (Prova disso é que o escritor Arthur Miller, ex-marido de Marilyn, após semanas sendo acordado de madrugada com homens à sua janela fazendo serenata à mulher, suportou o turbilhão por apenas três semanas).
O filme mostra a distância entre a mulher que Marilyn gostaria de ser e aquela que ganhou fama. É um conflito permanente, reforçado pelos apelos do jovem Colin, uma das poucas faces reais em meio a tanta pompa. Mas deixar de ser a estrela que todos esperam era ainda mais difícil do que ser Marilyn Monroe. O peso da escolha é conhecido por todos: a partir daquele filme, foram praticamente 15 anos a mil, colecionando sucessos, tombos e mais fama. E espalhando corações espatifados pelas calçadas.
'O primeiro amor é um doce desespero'

Pobre Colin, que, enquanto escrevo, segue estático, encantado e destruído ao assistir no set de filmagens a mulher que foi sua por breves e inesquecíveis dias.
Todos fomos Colin em algum momento da vida, pensava eu à saída do cinema. A frase de Thorndike (“o primeiro amor é um doce desespero”) ainda ecoava quando, à saída da sessão, esbarrei no cartaz do filme de Beto Brant e Renato Ciasca, Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, baseado no romance homônimo de Marçal Aquino.
É um dos títulos mais atraentes da literatura brasileira contemporânea – há quem o repita frequentemente ao ser assaltado por uma bela imagem nas ruas pelo caminho: “eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios…”
Não deu outra: entrei na segunda sessão. Parecia um contraste. Acabava de sair de uma Londres fria e aparentemente sem microorganismos vivos e fui direto para o sul do Pará, estado quente e chuvoso onde Camila Pitanga, interpretando a misteriosa Lavínia (a mulher de um pastor, ex-prostituta que se encanta por um forasteiro), faria Marilyn parecer uma tia vitoriana no Brasil.
Sai o jovem Colin e entra Cauby (Gustavo Machado), o fotógrafo que vai à Amazônia conhecer o seu país mais profundo e se perde ao encontrar a dúbia Lavínia, outro turbilhão da série “doces desesperos”.
O cartaz torna o título auto-explicativo. Qualquer um receberia as piores notícias daqueles lábios. Mas o filme, como o livro, deixa aberta a compreensão de outra obra de Marçal Aquino:O Amor e Outros Objetos Pontiagudos.
Lavínia, personagem de Camila Pitanga em "Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios"

No filme, Brant e Ciasca reproduzem o que já haviam desenhado em Cão Sem Dono: o encontro e a perdição, a solidão e a espera, a entrega e a adoração – tudo rasgadamente pontiagudo, regado a suor, lassidão, devaneios, desejos e medo.
Eu Receberia tem como mérito traduzir na tela a aflição de uma tragédia prestes a explodir toda vez que o coração salta à boca.
A violência do entorno (o desmate, a pistolagem, as ameaças, as traições, a fé e a violência que movem montanhas e provocam feridas) é o pano de fundo de um Brasil real.
Mas não faz arranhão perto dos amores doces e desesperados que pulsam nos lugares mais inóspitos – seja um set de filmagens em Londres, uma casa encravada na selva ou num velho encontro de turmas de colegial.



quinta-feira, 3 de maio de 2012

Livro expõe relação entre padre e rainha


Amor platônico entre Antônio Vieira e Cristina, monarca da Suécia, é narrado por pesquisadora

UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo

Lima Duarte como Padre Vieira no filme 'Palavra e Utopia'; longa mostra amizade com rainha - Reprodução
Lima Duarte como Padre Vieira no filme 'Palavra e Utopia'; longa mostra amizade com rainha

      Condenado pela Inquisição de Coimbra por fazer duras críticas à exploração dos escravos, o padre português Antônio Vieira foi privado, em 1667, do direito de pregar em público, além de ser obrigado a passar cinco anos como degredado, em Roma. Um doloroso castigo, pois os sermões transformaram Vieira, nas sábias palavras de Fernando Pessoa, no "imperador da língua portuguesa". A punição foi amenizada, no entanto, pela amizade epistolar que o religioso manteve com Cristina Vasa, ex-rainha da Suécia que, depois de abdicar do trono, se mudara para a Itália, em 1656. A silenciosa mas intensa relação entre eles inspirou a pesquisadora austríaca Gloria Kaiser, que escreveu O Poder Erótico (Reler Editora), livro que será lançado hoje no Rio.

      Baseada nos diários e nas cartas do padre e da ex-monarca, Gloria reconstituiu, de forma delicada mas precisa, uma sofrida e apaixonada relação. "Foi platônica, como bem afirma o historiador Ronaldo Vainfas na introdução de meu livro", comenta a pesquisadora. "Mas também foi muito erótico." Obrigado a se manter em silêncio, Vieira (1608-1697) tornou-se o capelão particular de Cristina, que conseguiu tal liberação diretamente com o papa Clemente IX. Ela já era admiradora de seus sermões, daí a insistência em manter um contato direto.

      Na verdade, são dois personagens fascinantes. Antônio Vieira passou 62 anos de sua vida dedicado às atividades religiosa e literária, que dariam ao idioma português o mais esmerado dos tratamentos e o mais aprimorado domínio da técnica. Já Cristina Vasa surpreendeu o mundo ao abdicar do trono sueco em 1654 por motivos incertos - aparentemente foram problemas para governar, como dificuldade na fixação de impostos e más relações diplomáticas com a Polônia. Mas ela era uma mulher muito avançada, pois gostava de vestir trajes masculinos, nunca se casou e teve casos com homens e mulheres.

      "Vieira viveu a sublimação do erotismo", comenta Gloria, que conversou por e-mail com oEstado ainda na Áustria, antes de embarcar para o Rio. "O erotismo sublimado, elevado, reservado às atividades espirituais. Um erotismo nutrido pela saudade a ponto de ficar irrealizável. O erotismo como saudade de saudade. O erotismo como força poderosa na vida de cada pessoa (consciente ou inconsciente)."

      O relacionamento entre o padre e a ex-rainha se baseou em encontros mais ou menos regulares no Palácio Riario, onde Cristina residiu. Vieira também participou em silêncio dos encontros da Accademia Reale, fundada por ela e centro de discussões intelectuais. Ele escreveu textos lidos pelos cardeais e por Cristina sobre temas diversos, como a ameaça dos turcos sobre a Europa ou críticas à sujeira e ao abandono em que se encontrava Roma.

      "Em diálogo com Cristina, ele abriu pouco a pouco a alma", comenta Gloria, observando que o padre se lembrou de admirações passadas para sublimar o desejo. "Quando se referiu à rainha Dona Luisa, Vieira disse: 'No momento em que me deparei com Dona Luisa, fui tomado por enormes forças e desejos - e uma labareda de fogo surgida de algum lugar proibido invadiu a minha vida. Encontrei um mundo que eu ainda não havia pisado.'"

      A amizade uniu o religioso e a rainha até 1675, quando o papa Clemente X absolve Vieira das acusações da Inquisição. Não voltaram mais a se falar, apesar da insistência de Cristina. Quando morreu, em 1689, ela foi sepultada na Basílica de São Pedro, entre papas, a pedido de Padre Vieira. 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Denotação e conotação


Menalton Braff

Carta Capital

      Não é que o fato me incomode, isso não. Há muito tempo deixei a sala de aula, e há muito mais tempo desisti de salvar o mundo. Não me incomoda, mas me causa espanto a incompetência de algumas pessoas para a leitura. Toda vez que publico um texto que fuja de uma denotação rastaquera, pão pão, queijo queijo, sofro críticas ferozes, quase sempre mal educadas. Me espanta, sobretudo, a ousadia de alguns interlocutores, que opinam sobre qualquer assunto com uma desenvoltura assombrosa.
      Antigamente as escolas ensinavam leitura e interpretação, acho que não ensinam mais. E a interpretação é o modo como o leitor decodifica um texto de maneira correta. Às vezes, quando vejo, acabo de introduzir uma ironia no que estou escrevendo. Uma ironia, pode ser extremamente sutil. Ou não. O leitor atento, no caso da ironia, deve entender o contrário do que está dito. É um recurso de retórica muito comum, fartamente utilizado, e que tem lá sua graça. Pois é aí que a coisa pega. A graça. Algumas pessoas são muito sisudas para perceberem que existe mais de um texto onde elas pensam haver apenas um.
      Mas não é só. Continuando o caso ainda da ironia: dá ao texto uma pitada do gosto de literatura. Ou seja, ela pode ser um elemento estético. E então me valho do Theodor Adorno quando afirma que “É impossível explicar a broncos o que é a arte; não poderiam introduzir na sua experiência viva a compreensão intelectual. Está neles tão sobrevalorizado o princípio de realidade que interdiz sem mais o comportamento estético (…) Perante o ‘Para quê tudo isso?’, perante a reprovação da sua real inutilidade, as obras de arte emudecem total e irremediavelmente”.
      Existe algo que se chama leitura referencial. É aquela para a qual apenas o assunto interessa. Em tudo vê denotação. Pode-se dizer que é um nível primário de leitura, mas primário no sentido de primeiro. É o contato com as palavras, a intuição, a primeira impressão. Muitas pessoas não conseguem uma segunda leitura para penetrar a conotação.
      Pois bem, o discurso científico, ensaístico, didático e, por que não, o discurso jornalistico (os discursos cujo objetivo é informar) não são os lugares apropriados para que se pratique uma linguagem tendendo para a linguagem literária. Pode causar ruído na comunicação.
      A crônica, meus amigos e eventuais leitores, a crônica não se quer portadora de verdade nenhuma; a crônica não tem o objetivo de informar. Ela é texto digestivo, leve, em que brincadeiras linguísticas são possíveis, pois a crônica deve ser, via de regra, bem humorada, com alguns elementos da linguagem literária. Entre eles a ironia faz boa figura. A crônica é opinativa, sempre escrita expressando denotativa ou conotativamente a opinião do cronista sobre determinado assunto.
      O artigo tem o direito de ser carrancudo. Ou não. O articulista informa, o cronista distrai. Às vezes até tratando de assunto sério.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Bibi: uma garotinha de 89 anos no palco

Fernando Molica

O Dia

      Rio -  Na introdução do espetáculo, uma doce ironia: Bibi Ferreira sobe ao palco do Teatro Net Rio ao som de ‘Malandragem’ (Frejat-Cazuza), canção em que Cássia Eller dizia ser, quem sabe, uma garotinha. Às vésperas dos 90 anos, Bibi está longe de uma garotinha, mas não perdeu o humor. Logo no início do show, revela um episódio de sua vida e o situa no século 17.
      Não é garotinha, mas no palco, de pé diante do microfone, não tem nada de velhinha. A voz continua jovem, clara e potente, capaz de acompanhar a orquestra em perigosos graves e em audaciosos agudos.
      Ao longo de uma hora e quinze minutos, ela conta histórias e apresenta clássicos da música brasileira e       internacional, entre eles, temas de ‘Hello Dolly’, ‘O homem de La Mancha’ e ‘Gota d’água’. E ainda brinca com óperas como o ‘Barbeiro de Sevilha’ — Bibi troca a letra de forma proposital, o que não a livra de percorrer todas as notas da partitura. Em outro momento, sem qualquer mudança de figurino ou de maquiagem, Bibi, atriz, fica a cara de Edith Piaf ao cantar algumas suas canções. “Ela (Piaf) me sustenta há 27 anos”, ressalta, entre risos. Não é preciso condescendência para gostar do espetáculo. Não é necessário dar qualquer desconto pelo fato de a estrela ter 89 anos. Quem se apresenta é uma artista cujo talento não requer paternalismo — como ela tem dito, está ali trabalhando, o teatro é seu ganha-pão. Rigorosa, não admitiria apresentar-se ao público sem condições.
      Terminado o show, ela volta ao palco para receber uma nova leva de aplausos. Agradece, elogia a plateia e retorna aos bastidores, apoiada em seu empresário. Neste momento é como se a Bibi artista — aquela, de idade indefinível — desse lugar à senhora Abigail Izquierdo, uma quase nonagenária. A segurança demonstrada em cena é trocada por passos cuidadosos, as mãos buscam apoio nos braços de seu acompanhante. A cena apenas reafirma o talento da atriz capaz de interpretar uma mulher muito mais jovem.A vida é amiga da arte, disse Caetano Veloso.
      Em 1923, um ano depois do nascimento de Bibi, a sinfonia ‘Vigília d’armas’, composta por Julio Reis (1863-1933), foi ouvida pela última vez num palco. Amanhã, às 19h, a peça será executada pela Orquestra Sinfônica UniRio regida pelo maestro Branco Bernardes. O concerto será na Sala Villa-Lobos, na Avenida Pasteur 436, fundos. A entrada é franca.

Fernando Molica é jornalista e escritor |

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O lamento de não ser negro

Por Tim Adams

The Observer


      Em 2005, o diretor Kevin Mcdonald estava trabalhando em Uganda em seu filme O Último Rei da Escócia. Nas favelas de Kampala, ele ficou intrigado por um fato curioso: parecia haver imagens de Bob Marley, slogans “Get up, stand up” [Levante-se, erga-se] e dreadlocks [tranças finas e longas nos cabelos] em todos os lugares aonde ele ia.
      Marley já estava na mente de Mcdonald, de qualquer modo: ele havia sido indagado por Chris Blackwell, fundador da Island Records, se estaria interessado em participar de um projeto de filme sobre o duradouro legado do músico jamaicano.
Foto: Garry Knight/Flickr

      O plano original era acompanhar um grupo de rastafáris em sua jornada de Kingston até sua pátria espiritual na Etiópia, para participar de uma comemoração do 60º aniversário do nascimento de Marley. Afinal esse filme nunca foi feito, mas quando surgiu a oportunidade de Mcdonald fazer um documentário mais ambicioso sobre Marley ele a agarrou.
      Crucialmente, o filme tinha a bênção e o apoio da família Marley e de figuras chaves em sua evolução musical, incluindo o há muito afastado Wailer original, Neville “Bunny” Livingstone. “Parecia muito importante fazer esse filme agora, enquanto algumas pessoas que conheceram melhor Bob, especialmente nos primeiros anos, ainda estão aqui para contar”, diz Macdonald.
      Ele passou a reunir entrevistas e a pesquisar alguns dos aspectos mais misteriosos de uma vida muito mitificada, que terminou de modo trágico e prematuro em 1981, quando Marley tinha apenas 36 anos.
      Houve frustrações para Mcdonald, como a quase total ausência de gravações ou fotos dos anos de formação de Bob Marley and the Wailers. Mas com persistência e as ricas memórias sobre o período narradas por Livingstone, a viúva de Marley, Rita, e outros ele montou o filme biográfico.
      Durante sua vida Bob Marley relutou em dar entrevistas. “Tendo pouca educação formal”, sugere Macdonald, “ele se sentia desconfortável ao ser interrogado por jornalistas.” De qualquer modo, havia aspectos de seu passado em que ele não queria tocar, especialmente seus sentimentos sobre seu pai branco e ausente, Norval Marley, um homem que afirmava ter sido um capitão do exército colonial do Caribe, mas que não foi.
      De certa maneira, no filme o “capitão” Norval torna-se chave para compreender Marley. Como diz Macdonald, “muitas pessoas supõem que Bob era negro e ficam surpresas ao descobrir que seu pai era branco”. O preconceito associado a esse fato na remota aldeia natal de Marley, Nine Miles, nas montanhas da Jamaica, ajudou a formar a poderosa busca de identidade que ele descobriu no rastafarismo [seita originária da Jamaica cujos membros veneram Hailé Selassié como o salvador e consideram a África, especialmente a Etiópia, como Terra Prometida; o nome deriva de "Ras Tafari", antigo nome de Hailé Selassié].
      As contradições de sua biografia foram traduzidas em uma metáfora global extremamente sedutora de luta e união: “Let’s get together and feel all right” [Vamos ficar juntos e estaremos bem].
      “Eu estava dando entrevistas com Ziggy Marley outro dia”, diz Macdonald, “e ele falou sobre seu pai: ‘Eu acho que Bob sempre lamentou o fato de não ser negro’.”
      “Eu não colocaria isso em termos tão decisivos, mas acho que é uma chave para sua psicologia e sua música. Ele sempre foi o forasteiro, e descobriu em sua vida e sua música uma maneira de redimir esse fato.”
      Essa redenção também forneceu a Macdonald parte da resposta de por que Marley tinha um enorme significado não apenas nas favelas de Uganda, mas entre os despossuídos do mundo inteiro. Seu filme termina com uma sequência de referências contemporâneas ao cantor entre movimentos políticos populares. “Na Tunísia no início da Primavera Árabe as pessoas cantavam ‘Get up, stand up’“, diz Macdonald. “Imediatamente depois que o vendedor de frutas se incendiou, dando início à revolução, esse era o slogan escrito no muro perto de onde ele morreu.”
      Essa influência pode ser medida de muitas maneiras: três décadas depois de sua morte, Marley tem 30 milhões de seguidores no Facebook.

Leia mais em http://www.guardian.co.uk/

terça-feira, 3 de abril de 2012

No coração da floresta

Orlando Margarido, Carta Capital


      A imagem do índio que encara a câmera, altivo e desafiador, é talvez a mais pungente que se tenha visto no cinema brasileiro recente. Não é pouco quando lembramos dos bons documentários de nova safra que têm surgido sobre o tema indígena no País. Mas a cena pertence a uma ficção, ou melhor, presta-se a ela porque reconstituída a partir de um esforço real. Para o diretor Cao Hamburger, a visão desse guerreiro solitário foi decisiva desde o início para realizar o seu Xingu, com estreia prevista para 6 de abril. Tanto assim que ele ponderou então apenas precisar dar conta de uma história para justificar o rosto imóvel que tanto o marcou e por certo marcará o espectador.
      Um exagero, claro, na medida em que essa narrativa trata nada menos que a aventura dos irmãos Villas-Bôas na aproximação com as tribos distantes e intocadas, e a consequente demarcação do Parque do Xingu, que comemorou seu cinquentenário em 2011. Hamburger, realizador afeito aos núcleos dramáticos econômicos que representam todo um contexto histórico, como em O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (2006), nos propõe menos um olhar épico ou incensador habitual a filmes do gênero e mais um trato intimista calcado na relação dos três irmãos. Sim, porque há um trio que talvez a história oficial não tenha se esforçado em atentar, deixando Leonardo, ou mesmo Cláudio, à sombra de Orlando Villas-Bôas. “Minha geração parece ter esquecido dos sertanistas ou mal chegou a conhecer suas personalidades distintas, enquanto meus filhos nunca tinham ouvido falar deles”, aponta em entrevista a CartaCapital o diretor de 50 anos e filhos na faixa dos 20. Idade similar à que os Villas-Bôas tinham quando se lançaram ao Brasil Central.
      Esta foi uma referência essencial quando Cao Hamburger recebeu a proposta do sócio Fernando Meirelles na O2 e de Noel Villas-Bôas, filho de Orlando, que levou a ideia à produtora. “Tínhamos ali um elo interessante, pois, se a preocupação desses cientistas era a preservação dos índios, agora se tratava de preservar a memória de quem lutou por eles.” De início titubeou, e foi pesquisar para descobrir que a literatura sobre os Villas-Bôas é rara, não mais do que algumas lembranças familiares, relatos de episódios pitorescos que contribuíram, por fim, além de biografias festivas. O desinteresse o intrigou e tornou-se o impulso inicial para seu próprio esclarecimento. “Não dá para entender a razão de se esquecer de quem mudou o paradigma da política indigenista no País. Era um momento daquele Brasil que deu certo.”
      Mas, desde o início também, o diretor refletiu sobre o lado reverso do projeto, aquele apontado para a riqueza indígena que da mesma forma, acredita, passa ao largo do dito Brasil civilizado. Ele diz ter se dado conta durante o levantamento do material e da realização de um preconceito em relação aos índios que parece ter se mantido no tempo. Desse espelhamento entre a obra dos Villas-Bôas, a representação da complexidade e sofisticação cultural dos índios e o que deles pode ser absorvido por nós surgiu para Cao o saldo mais valioso a ser efetivado por seu filme. “Creio que por isso a imagem daquele índio me bateu tanto. Ele nos olha, nos provoca como um espelho.”
      Denota-se daí o fato de o diretor ter adotado um registro mesmo convencional, mas caprichado na fotografia de Adriano Goldman e montagem de Gustavo Giani, para contar ao público a empreitada dos irmãos, num tom de espírito aventureiro que verdadeiramente os movia. Mas, igualmente, sem a aura de heroísmo, revela sua experiência com críticos e opositores, suas passagens malogradas e questionáveis. O diretor sabia estar se metendo num vespeiro de conflitos e polêmicas infindáveis e manteve-se longe de julgamentos, costurando sua trama pela linha dos fatos. Assim, desde a primeira viagem de Cláudio e Leonardo, em 1944, a quem se juntará mais tarde Orlando, na expedição batizada de Roncador-Xingu, a opção é balizar a versão do filme pelas decisões e iniciativas do trio em detrimento de suas negociações com o governo de cada época. Até 1961, ano de sanção, pelo presidente Jânio Quadros, do Parque Nacional do Xingu, depois Parque Indígena do Xingu, os exploradores terão de lidar com dois mandatos de Getúlio Vargas e os de Eurico Gaspar Dutra e Juscelino Kubitschek, entre outros ocupantes de rápida passagem na Presidência da República. A aventura não findará com a criação da reserva, e os irmãos terão enfrentamento mais difícil com os militares.
Guerreiros solitários. Hamburger e os irmãos, retratados ficcionalmente em Xingu. Foto: Beatriz Lefevre

      Cao concorda que para uma geração que cresceu na ditadura era razoável supor serem eles homens aliados aos governos militares, figuras encarregadas de levar um ideal de conquista e civilidade Brasil adentro. “Mas os Villas-Bôas mantinham seus ideais acima de tudo e não se importavam em negociar com quem quer que fosse para atingi-los. Eles respeitavam o Marechal Rondon, seu mestre, mas não hesitaram em ir contra seus ensinamentos por terem uma opinião diferente.” Essa postura poderia chegar à rivalidade mesmo entre os três. Um dos princípios em que o filme se sustenta, se não o principal, é o das personalidades diversas dos irmãos, o que terá seu peso no desenrolar dos acontecimentos. Orlando, o mais velho e papel de Felipe Camargo, nos é apresentado como o articulador hábil entre as necessidades do projeto e o governo, mantendo longe os interesses externos. Protegido deste é Leonardo (Caio Blat), caçula entusiasmado e voluptuoso, cujo traço irresponsável é confrontado por Cláudio (João Miguel), idealista e determinado, que não aceita contemporizar em seus objetivos.
      Será ele a podar Leonardo do projeto quando este se envolve com uma índia camaiurá e a engravida, numa relação complexa para sua tribo, enviando-o ao Sul, onde morrerá, em São Paulo, em 1961. O episódio se manterá traumático e de dura recordação para Cláudio, ele mesmo depois personagem de um relacionamento com uma índia. Cláudio é também o escolhido pelo diretor para ser o narrador do filme, no formato do diário que se tornaria célebre mais tarde. Um tanto reiterativo, o recurso tem a intenção de promover maior aproximação da aventura com o espectador, contextualizando-o, a partir do princípio de que o feito dos irmãos ficou na história longínqua.
      A marcha para o Oeste que nos traz Cao tem também sua função idealista em um momento no qual se procura debater iniciativas como a sustentabilidade possível em questões como a da Amazônia. Talvez tenha sido nessa configuração a leitura do filme pela plateia internacional do Festival do Berlim, onde foi exibido em fevereiro, conquistando um terceiro lugar na preferência popular na mostra Panorama. Cao não havia se dado conta até então de que, do exotismo de que eram vítimas cinematografias como esta em que Xingu está inserida, passou-se a um olhar e interesse mais maduros, aceitação que testará também em abril no Festival de Tribeca, em Nova York. Acredita que seu projeto chega ainda num período especialmente feliz para o País no exterior, que tem como mão contrária uma elevação da autoestima do brasileiro. “Os desafios enfrentados por esses homens, que não enxergavam limites em seus ideais, deveriam ser resgatados como valores para hoje.”
No alvo. No filme, o espectador assimila a aventura vivida na floresta. Foto: Beatriz Lefevr

      Cao Hamburger valeu-se de especialistas para engendrar o roteiro com Elena Soarez e Anna Muylaert, a exemplo da antropóloga e diretora Maíra Bühler e do documentarista de origem inglesa Adrian Cowell. Este, morto em outubro de 2011, foi assíduo parceiro dos Villas-Bôas. Uma das desafiadoras missões em questão que os uniu partiu de Juscelino Kubitschek quando o presidente pediu aos sertanistas que demarcassem o centro geográfico do Brasil. A viagem de 1958 a terras indígenas de Mato Grosso, dentro do atual Xingu, é tema do documentário Coração do Brasil, em exibição no Festival É Tudo Verdade na sexta-feira 30, às 21 horas, e no sábado 31, às 15 horas. No filme dirigido por Daniel Solá Santiago, com preciosas imagens dos irmãos, a aventura é refeita em 2008 com alguns dos integrantes originais, como o explorador Sergio Vahia de Abreu, o cacique Raoni e o próprio Cowell, que dá seu depoimento comparando os períodos.
      Impressiona se tomarmos os dois momentos em comparação no filme às transformações sofridas nos hábitos desses povos da floresta, que são simbolizadas numa dança de improviso dos índios vestidos com roupas ocidentais e grifes. “Índio não é mais aquele de antes, não é bobo, agora estuda”, diz uma liderança no documentário, ao negociar um barco e suprimentos em troca da filmagem. Esse caso exemplifica o espelho a que se refere Cao, condição também imortalizada no trabalho fotográfico de Pedro Martinelli em suas conhecidas expedições à Amazônia. É ele o autor da imagem do índio solitário que tanto impactou Hamburger.
      Assim como os Villas-Bôas no universo indigenista, Martinelli foi o primeiro fotógrafo a registrar o encontro com um crenacarore, hoje a etnia panará, nos anos 70. O profissional flagrou o rosto com um esboço de sorriso. Mas o crenacarore do filme mantém-se sério, e a opção por não rir, lembra Hamburger, justifica-se apenas pelo fato de o índio escolhido usar um aparelho dentário. Sinal dos tempos, que Xingu também quer espelhar.