sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Milton Nascimento completa 50 anos na estrada e faz show em SP

O Estadão


Lauro Lisboa Garcia - O Estado de S. Paulo
Tudo começou com uma ida ao cinema. No dia em que Milton Nascimento assistiu em várias sessões seguidas ao filme Jules et Jim, de Françoise Truffaut, ao lado do amigo Márcio Borges, decidiu que seria compositor e músico profissional. Até então queria apenas interpretar canções de outros autores. E lá se vão cinco décadas, que ele comemora com a turnê Milton Nascimento - 50 Anos de Voz nas Estradas, patrocinada pelo programa Natura Musical. Depois de Belo Horizonte e Brasília, o show chega hoje a São Paulo, tendo outro amigo e parceiro musical, Lô Borges, e a cantora Sandy como convidados.

Outro evento marcante é a comemoração dos 40 anos do histórico álbum 'Clube da Esquina' -  Léo Boi/Divulgação
Léo Boi/Divulgação
Outro evento marcante é a comemoração dos 40 anos do histórico álbum 'Clube da Esquina'
Outro evento marcante é a comemoração dos 40 anos do histórico álbum Clube da Esquina, que revelava ao Brasil um estilo mineiro inclassificável de composição e harmonia, ponto de referência de sofisticação para as gerações seguintes, mesclando influências de jazz, rock (especialmente Beatles) e tradições sonoras de Minas.
Isso tudo já foi exaustivamente comentado, mas como se trata de um olhar retrospectivo, Milton faz questão de frisar que os grandes feitos em sua carreira se realizaram na base da amizade, do trabalho em colaboração. Sua ampla e influente discografia e as atuações no palco são comprovantes disso. "Este show é dirigido pelo Regis Faria. Em casa, tenho um retrato meu com ele, brincando de cavalinho. Somos amigos desde garotos", diz o cantor.
Montar o roteiro de uma turnê como essa é difícil, com tanta oferta de música boa para escolher, mas Travessia, que completa 45 anos, está garantida, ao lado de outras canções marcantes de todas as fases da carreira. "É complicado porque sempre ficam mil coisas de fora. Às vezes você faz um show, canta o máximo que pode, mas sempre vem alguém reclamar que faltou uma tal música que gostaria de ter ouvido. Mas é assim mesmo."
Nascido no Rio, Milton foi morar ainda criança em Três Pontas, pequena cidade no interior mineiro que se tornou sua maior referência. O último show da turnê comemorativa será ali, onde ele começou como crooner "nos bailes da vida". "Com 14 anos já cantava na noite, ao lado de Wagner Tiso, que tinha 13. Naquela época, pra cantar em baile, a gente tinha de ouvir de tudo para agradar o povo, mas eu só cantava as que me agradavam", lembra.
Ele, Tiso e uma amiga tentavam recriar canções que ouviam no rádio e gostavam. "Um escrevia a letra, outro pegava a melodia, mas não dava para criar as harmonias, então inventávamos do nosso jeito. E foi isso que batizou a minha vida e a do Wagner."
Já na capital mineira, ao conhecer músicos profissionais, Milton notou que as mesmas músicas que ouvia em Três Pontas tinham harmonias completamente diferentes. "Falei que teria de começar tudo de novo, achando que estava tudo errado. Mas os músicos de Belo Horizonte de quem fiquei amigo não me deixaram mexer em nada, porque diziam que ninguém fazia aquilo igual a mim." Dessa linguagem própria surgiu a escola harmônica da turma que viria a ficar conhecida como Clube da Esquina.
Ele então tocava contrabaixo, e só gostava de cantar ao lado de Tiso e do baterista Paulo Braga. Numa dessas sessões de música com o trio, conheceu Márcio Borges, que ficou meses insistindo para que se tornasse compositor. Então veio a maratona de Jules et Jim e tudo se transformou. Milton então surpreendeu o Brasil e o mundo com a voz metálica, as composições pungentes, os arranjos e as harmonias únicas, vertentes que ele mantém em movimento.
Seu álbum mais recente foi gravado com jovens músicos de Três Pontas. "Acho uma felicidade para o Brasil essa vontade de se juntar", diz o cantor, confirmando mais uma vez sua vocação para trabalhar em esquema coletivo. Em outubro, ele grava o show do Rio para um DVD, com participação da Companhia de Dança Viver a Vida, que já fez um espetáculo com músicas e letras de Milton sem parceiros, e do grupo Bangalafumenga. O portal http://www.milton50anos.com.br/ também foi criado para debater a grande obra do cantor e compositor.

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