Dia 07/06/2012: 23 anos da morte de Nara Leão. Para maiores informações acesse http://www.naraleao.com.br/
Este blog destina-se ao registro de vídeos e textos, meus e de outros que se interessem em colaborar, assim como à notícias sobre cultura. Boa leitura!
quarta-feira, 6 de junho de 2012
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Pode digitar a senha!
Alberto Villas
Carta Capital
Eu tenho trinta e nove! Acredite! Trinta e nove senhas. Poucas sei de cor, mas todas estão devidamente anotadas num pedacinho de papel e guardadas a sete chaves. Senhas de bancos, de cartões de crédito, das companhias aéreas, de sebos virtuais, da Amazon, do Mercado Livre, do Libération.fr, senhas que não acabam mais.
Você deve estar se perguntando: mas por que não uma só senha? Impossível. Muitas vezes não sou eu que escolho. Agora por exemplo, acabo de renovar a assinatura da revista Geo e eles me enviaram uma nova senha:
BREVILALB736+99416
Vai decorar uma senha dessas! Se eu tivesse apenas uma seguramente saberia de cor e salteado. Nós éramos craques em guardar nomes, sobrenomes, telefones e endereços. Até hoje me pergunto como nunca me esqueci, por exemplo, a ficha completa de amigos de infância. Nilo Octávio Lage Botelho, Rua Rio Verde 619! Há mais de cinquenta anos o nome e sobrenome desse amigo de infância nunca saiu da minha cabeça. Nem mesmo o endereço.
Nesse mundo de hoje duvido que exista uma pessoa que não tenha senha, ao menos umazinha. Para criar uma existem técnicas. Dizem para nunca escolher a data de nascimento porque a bandidagem é esperta. Documento roubado na mão a primeira coisa que o bandido tenta no caixa 24 horas é a data de nascimento. Pode ser. Mas como ladrões são espertos e tenho certeza que nenhum deles anda tentando tirar dinheiro com a data de nascimento da vítima como senha. Devem pensar assim:
- Ninguém é idiota de colocar a data de nascimento!
Senha é segredo que cada um guarda bem guardado. Tem gente que não revela a senha por nada nesse mundo. Entendo. Algumas são ridículas. Um dia um amigo meu de trabalho foi obrigado a me passar a dele para livrá-lo de um apuro. E passou:
Docinho!
Como aquele homenzarrão de dois metros de altura tinha uma senha tão meiga? Sei que muita gente usa palavrão como senha. Tem gente que usa só palavras em inglês e outros apelidos. Fico aqui pensando que senhas algumas pessoas teriam escolhido.
Será que o Zé Simão tem uma senha macaco?
Será que o João Gilberto tem uma senha opato?
Será que o Hans Donner tem uma senha globeleza?
Com certeza milhares de corintianos devem ter como senha timao. Experimente criar uma conta e colocar timao como senha. A resposta será sempre a mesma: senha já existente! Da mesma maneira milhares de atleticanos devem ter como senha a palavra galo. Imagine como deve ter senha uai em Minas Gerais, tche no Rio Grande do Sul e axe na Bahia…
Uma amiga da minha filha teve uma ideia bem simples. Colocou a palavra eu como senha. Mas uma outra teve uma ideia mais legal ainda. A senha dela é senha. Quando alguém pede para ela digitar a senha ela digita: senha.
domingo, 3 de junho de 2012
Em defesa de uma biblioteca virtual
por ALEXANDRE NODARI [1], EDUARDO STERZI [2], EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO [3], IDELBER AVELAR [4], PABLO ORTELLADO [5], RICARDO LÍSIAS [6] eVERONICA STIGGER [7]
Blog da REA
A liberdade de expressão moderna é indissociável da invenção da imprensa, ou seja, da possibilidade de reproduzir mecanicamente discursos e imagens, fazendo-os circular e durar para além daquele que os concebeu. A própria formação da esfera pública, bem como do ambiente de debate científico e universitário, está umbilicalmente conectada à generalização do acesso aos bens culturais. Sem a disseminação da diversidade e do confronto de opiniões e de teorias, a liberdade de expressão perde seu sopro vital e se torna mero diálogo de surdos, quando não monólogo dos poderosos.
A internet eleva ao máximo o potencial democrático da circulação do pensamento. E coloca, no centro do debate contemporâneo, o conflito entre uma visão formal-patrimonialista e outra material-comunitária da liberdade de expressão. Tal cisão, bem real, pareceria manifestar-se no conflito entre direitos autorais e direito de acesso. Estes não são, porém, necessariamente antagônicos, pois o prestígio moral e econômico de um autor ou de uma obra está, em última análise, ligado à sua visibilidade. São incontáveis os exemplos de escritores e editoras que não só se tornaram mais conhecidos, como tiveram um incremento na venda de suas obras depois que estas apareceram para download. O público que baixa livros é o mesmo que os compra.
Assim, o verdadeiro conflito não é entre proprietários e piratas, mas entre monopolistas e difusionistas. A concepção monopolista-formal dos direitos autorais está embasada na ideia de que aquilo que confere valor à obra é a sua raridade, o seu difícil acesso; já a difusionista-democrática se ampara na inseparabilidade de publicidade e valor. A internet favorece a segunda concepção, uma vez que a existência física do objeto cultural que sustentava a primeira vai sendo substituída por sua transformação em entidade puramente informacional. Desse modo, também se produz uma transformação da natureza das bibliotecas. As novas bibliotecas virtuais se baseiam no armazenamento e na disseminação tais como as antigas bibliotecas materiais, mas oferecem uma mudança decisiva porque a estocagem depende da distribuição e não o contrário: é a difusão que garante o armazenamento descentralizado dos arquivos.
É uma biblioteca sem fins lucrativos e construída nesses moldes modernos e democráticos que se acha sob ameaça devido ao processo movido pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR), sob o pretexto de infringir direitos autorais. O alto preço dos livros, o desaparelhamento das bibliotecas públicas e o encarecimento do xerox levaram um estudante universitário a disponibilizar online textos esgotados ou de difícil acesso para seus colegas. A iniciativa cresceu, atraiu a atenção de estudantes e professores de todo o país e se tornou a mais conhecida biblioteca virtual brasileira de textos acadêmicos, ganhando prestígio comparável ao site “Derrida en castellano”, que sofreu processo semelhante e foi absolvido nas cortes argentinas, como esperamos que o “livrosdehumanas.org” o será pela Justiça brasileira.
Os defensores da concepção patrimonialista dos direitos autorais costumam pintar cenários catastróficos em que a circulação irrestrita de obras gera esterilidade criativa. No entanto, ignoram, ou fingem ignorar, que os textos nascem sempre de outros textos e que o autor é, antes de tudo, um leitor. Hoje, lamentamos a destruição das grandes bibliotecas do passado, como a de Alexandria, e das riquezas que elas protegiam. Poupemo-nos de chorar um dia pela aniquilação das bibliotecas virtuais e pela cultura que elas podiam ter gerado.
[1] ALEXANDRE NODARI é Doutor em Teoria Literária pela UFSC e editor da Cultura e Barbárie.[2] EDUARDO STERZI é escritor e professor de Teoria Literária na Unicamp.[3] EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO é antropólogo e professor do Museu Nacional/UFRJ.[4] IDELBER AVELAR é crítico literário e professor da Tulane University (Nova Orleans, EUA).[5] PABLO ORTELLADO é professor de Gestão de Políticas Públicas e de Estudos Culturais na USP, coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (GPOPAI).[6] RICARDO LÍSIAS é escritor, autor de “O céu dos suicidas” entre outros.
[7] VERONICA STIGGER é escritora, professora de História da Arte na FAAP, coordenadora do curso de Criação Literária da Academia Internacional de Cinema (AIC).
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Wagner Moura desafina ao cantar Legião Urbana, mas carisma garante aplausos
O Dia
São Paulo - Como cantor, Wagner Moura é um ótimo ator. E mostrou isso no show tributo à Legião Urbana que aconteceu nesta terça-feira no Espaço das Américas, em São Paulo, e foi transmitido ao vivo pela MTV Brasil. No Twitter, o nome de Wagner Moura e a hashtag #TributoLegiaoUrbanaMTV estão na lista dos assuntos mais comentados até a manhã desta quarta.
Outro truque usado pelo ator foi lembrar, em duas oportunidades, que aquela "poderia" ser a última vez que Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá tocariam canções da Legião, como forma de aumentar a carga emocional da noite.
A apresentação começou com um dos maiores sucessos da Legião, "Tempo Perdido". Durante toda a música, foi praticamente impossível ouvir a voz de Moura, tamanha era a vontade que o público cantava junto.
Durante quase duas horas de show, Moura desafinou e cantou fora de tom a maior parte do tempo - e mesmo assim saiu aplaudido. Como? Com carisma e uma excelente atuação.
Houve momentos, por exemplo, em que Moura nem precisou abrir a boca. Bastou estender as mãos para ou dirigir um olhar emocionado que a plateia cantou sozinha. Foi assim em "Quase Sem Querer", "Eu Sei", "Índios", "Há Tempos", "Pais e Filhos" e "Será?", entre outras.
Wagner Moura e Dado Villa-Lobos | Foto: Orlando Oliveira / Ag. News
Nas duas canções seguintes, "Fábrica" e "Daniel na Cova dos Leões", o ator permaneceu inaudível. Mas a culpa, nesse caso, foi da péssima qualidade de som do Espaço das Américas.
Foi só em "Andrea Doria" que a voz de Moura apareceu. Primeiro, na conversa com o público, em que ele revelou ser essa a sua canção preferida da Legião. Depois, quando começou a cantar.
Aí foi possível perceber que, apesar de não tentar imitar Renato Russo, o ator copiava alguns de seus trejeitos vocais. Pior: na música seguinte, "Quase Sem Querer", ele imitou os característicos passos de dança do cantor.
Além disso, as versões tocadas eram reverentes demais às originais - com exceção de uma "Geração Coca-Cola" em ritmo de blues, cantada por Dado Villa-Lobos, não houve maiores ousadias nos arranjos.
Nada disso, no entanto, incomodou o público. Pelo contrário: quando a apresentação terminou, após dois bis, a plateia quis mais e pediu "Faroeste Caboclo" em coro. Mas o baterista Marcelo Bonfá respondeu com um "até amanhã".
A apresentação ainda teve participações especiais de Andy Gill, guitarrista do Gang of Four. Com ele, a banda tocou "Damaged Goods" (do Gang of Four), com Dado Villa-Lobos no vocal, e "Ainda É Cedo". Essas duas músicas ainda tiveram a presença de Bi Ribeiro, do Paralamas do Sucesso, no baixo.
Antes, Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, havia cantado e tocado guitarra em "Andrea Doria". Clayton Martin, também do Cidadão Instigado, tocou gaita em "Geração Coca-Cola".
Veja abaixo o repertório do show:
"Tempo Perdido"
"Fábrica"
"Daniel na Cova dos Leões"
"Andrea Doria"
"Quase Sem Querer"
"Eu Sei"
"Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto"
"A Via Láctea"
"Esperando por Mim"
"Índios"
"Monte Castelo"
"Teatro dos Vampiros"
"Geração Coca-Cola"
"Damaged Goods"
"Ainda É Cedo"
"Baader-Meinhof Blues"
"Sereníssima"
"Se Fiquei Esperando o Meu Amor Passar"
"Há Tempos"
"1965 (Duas Tribos)"
"Perfeição"
Bis 1
"Teorema"
"Antes das Seis"
"Giz"
"Pais e Filhos"
Bis 2
"Será?"
As informações são do repórter Augusto Gomes, do IG
domingo, 27 de maio de 2012
Chico Bento pede veto de Código Florestal a 'Dirma'
O Dia
São Paulo - Duas ilustrações do cartunista Maurício de Sousa, divulgadas nesta terça-feira, mostram o famoso personagem em quadrinhos Chico Bento, pedindo à presidenta Dilma Rousseff, o veto do código Florestal. No mês passado, o texto da nova legislação ambiental brasileira foi aprovado pela Câmara dos Deputados e está sendo analisado por Dilma, que pode vetá-lo integral ou parcialmente.
Primeiro, a ilustração foi divulgada na página do Twitter do cartunista, onde Chico Bento aparece dizendo: "Veta tudim, dona Dirma”. Em um segundo quadrinho, Chico Bento aparece com outrospersonagens dos quadrinhos: Rosinha, Hiro, Zé Lelé e Zé da Roça, que fazem o pedido à Dilma Rousseff para que sejam evitados possíveis "impactos nas matas, nos rios e nos peixes".
Na mensagem, Chico Bento completa: "Licença, dona Dirma! A gente num intendi muito das coisas da lei mais intendi das nossa necessidade! I nóis percisa das mata, dos rio, dos peixe... I tá todo mundo achando qui isso vai sê mexido pra pior! A sinhora podi ajudá pra isso num acontecê? Nossa gente vai agardecê por toda vida! Eu juro!”.
A história do cartunista Maurício de Sousa foi divulgada nesta terça
Ilustração divulgada no Twitter de Maurício de Sousa mostra Chico Bento pedindo veto doCódigo | Foto: Divulgação
O prazo para que Dilma apresente possíveis vetos e para sancionar o projeto da forma como está, vai até esta sexta-feira. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, disse nesta segunda-feira que a presidenta está fazendo um “estudo hipermeticuloso” sobre o Código Florestal. Frequentes reuniões tem ocorrido entre Dilma e a a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, deste de que o texto foi aprovado, no dia 7 de maio.
Em uma segunda ilustração, Chico Bento e sua turma deixam recado à presidente "Dirma". | Foto: Divulgação
terça-feira, 22 de maio de 2012
'House' se despede em grande estilo em episódio surpreendente
Carla RuasJorna do Brasil
O seriado House se despediu em grande estilo nos Estados Unidos na noite desta segunda-feira, 21, com um especial de duas horas no canal Fox. Na primeira hora, os fãs foram presenteados com uma retrospectiva das oito temporadas do seriado, no formato documentário, como se fosse um extra num DVD da série. Logo após o especial, o último episódio não deixou nada a desejar e ofereceu um final surpreendente para o seriado, no ar desde 2004.
O ator principal, Hugh Laurie, foi o anfitrião deste minidocumentário, realizando entrevistas exclusivas com o elenco, figurinistas, produtores e câmeras. O ator mostrou o clima emocionante de despedida enquanto a equipe se preparava para filmar o último episódio. A atriz Odette Annable, que interpreta a médica Jessica Adams, explica o porquê desta emoção: "nós somos uma grande família. A gente realmente passa mais tempo aqui do que em casa", afirmou.
O especial também mostrou como foram filmados episódios marcantes como "Me ajude", da 6ª temporada, quando Dr. House tenta salvar uma vítima soterrada embaixo de um prédio que desabou. Além disso, discutiu as relações entre os personagens principais: Dr. House, Dra. Lisa Cuddy, e Dr. James Wilson, ouvindo a opinião dos atores que deram vida aos personagens e roteiristas. O próprio Hugh Laurie foi convocado para defender o comportamento controverso do personagem Dr. House num tribunal fictício, onde os "juízes" eram produtores da série.
Mas a parte mais marcante foram os depoimentos de fãs, inclusive de uma brasileira (a bandeira do Brasil bem visível na parede do fundo), agradecendo o seriado pela influência que teve nas suas vidas. A popularidade do personagem Dr. House pelo mundo revela a inesperada simpatia que os fãs sentem por um médico infeliz e egocêntrico. Uma simpatia que fez com que torcessem durante oito temporadas para que ele achasse a solução para os seus problemas, mesmo que isso parecesse cada vez mais difícil.
Logo após o especial, o episódio final começa com House desmaiado no chão. A princípio não fica claro se ele esta na prisão, ou quanto tempo se passou desde o último episódio. Mas quando a câmera amplia e Dr. House abre os olhos, percebemos que ele está em um prédio abandonado que está pegando fogo, ao lado de um corpo desconhecido. Para aumentar o mistério, Dr. Lawrence Kutner (Kal Penn), o ex-funcionário que se matou na 5ª temporada, reaparece como uma alucinação e afirma que House, como ele, é suicida e que se não levantar e sair do prédio, vai finalmente conseguir o que almeja.
Ao longo do episódio, Dr. House tenta reconstruir os acontecimentos que o levaram ao prédio abandonado. Ele lembra que o corpo ao seu lado é de um paciente que estava à procura de medicamentos para suprir sua dependência de drogas. Ele era um corretor da bolsa bem-sucedido, mas após sofrer um acidente que o deixou com muita dor - assim como o House - começou a abusar dos remédios para dor, até se viciar em heroína.
No prédio abandonado, desta vez Amber, ex-namorada de Wilson - outra personagem que morreu, mas num acidente de ônibus -, tenta convencer Dr. House a sair com vida do local em chamas. Ela aparece mais uma vez como a voz da subconsciência de House, uma boa sacada dos produtores que nos ajuda a entender o que realmente se passa na sua mente perturbada.
Dr. House lembra que, ainda no hospital, tentou convencer Dr. Eric Foreman (Omar Epps) e depois seu melhor amigo, Dr. James Wilson (Robert Sean Leonard), a assumirem a culpa pelos banheiros inundados do hospital, o que poderia evitar sua ida para a prisão e assim permitir que passe com Dr. Wilson os últimos meses que lhe restam de vida. Os dois médicos se recusam a ajudá-lo e isso leva Dr. House a desaparecer por dois dias. Os médicos se sentem culpados e procuram por ele desesperados, chegando a conclusão que ele foi atrás de heroína com seu paciente viciado.
Antes de eles encontrarem Dr. House, outros personagens aparecem como alucinações para ele, tentando convencê-lo a levantar do chão e se salvar do incêndio. Sua ex-namorada Stacy Warner (Sela Ward) apela para o seu lado sentimental, mostrando a vida que eles poderiam ter tido juntos - casados e com um filho.
Dra. Allison Cameron (Jennifer Morrison), a médica que secretamente amava Dr. House, apela para a psicologia, primeiro apoiando a sua decisão de suicídio, porque "a vida é muito dura mesmo" e depois dizendo que ele estava na verdade enrolando para deixar que o destino decidisse se ele vai viver ou morrer - o que seria uma atitude covarde.
O argumento funciona e Dr. House levanta, dizendo exatamente o oposto de uma das suas frases favoritas durante o seriado: "eu posso mudar". Ele caminha para a saída do prédio, a tempo de ver Dr. Foreman e Dr. Wilson do lado de fora, mas antes que consiga sair, é consumido pelas chamas seguidas de uma explosão, para o horror de Dr. Wilson.
No funeral de House, todos os médicos retornam (de verdade desta vez) para dizerem apenas coisas boas sobre ele. Até que Dr. Wilson se irrita e diz a verdade: Dr. House era um idiota que insultava a todos e agia sozinho sem pensar nas consequências para quem estava ao seu redor, inclusive na sua morte.
Enquanto discursa no funeral, o seu telefone toca. Envergonhado, ele olha a mensagem que chegou: "cala boca seu idiota". Era House, que a seguir encontra Wilson nos degraus do seu apartamento e revela que fingiu sua morte para passar com ele o tempo que lhe resta de vida. E ao melhor estilo House, a última cena são os dois num lugar paradisíaco andando de moto, sem pressa nem destino. Parece que fingir sua própria morte foi mais um plano mirabolante de Dr. House.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
A felicidade no abismo
Ana Ferraz
Carta Capital
Ser muitos e ainda ser um. Como o protagonista João, no premiado À Beira do Abismo, em que chorou como em nenhum outro filme. Foto: Gabriela Barreto
Ele queria a entrevista aos pés de um baobá, árvore sagrada para os africanos, cujo tronco monumental leva à sugestão de estar de cabeça para baixo. Não se tratava de um baobá qualquer, o que já não seria pouco, mas de um com o qual o ator João Miguel tem uma conexão. Profundamente ligado à natureza, sempre que pode visita o gigante de raízes fincadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Mas a chuva torrencial não permitiu.
Um dos talentos mais requisitados de sua geração, aos 42 anos o baiano criado entre Salvador e Itaparica refaz com serenidade o percurso de quem pratica a arte como espaço de transformação. “Nunca achei que seria um ator premiado”, diz a CartaCapital, a acentuar que não lhe interessa a fama sem lastro. “Não tenho o deslumbre de me sentir um ator. Tem gente que vive do próprio ego, a se carcomer. Não me interessa o reconhecimento pelo vazio. Se for reconhecimento pelo trabalho, então é merecimento e nesse caso não se pode ter falsa modéstia. Aí é suave, é bonito.”
Desde sua estreia como protagonista em Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), as premiações foram se acumulando. “O filme já começou no mundo, em Cannes, foi muito bacana ver isso”, relembra João Miguel, a fala mansa, precisa e abundante modulada pelo sotaque aberto. Depois de aplaudida na mostra Um Certo Olhar, a película de estreia do diretor Marcelo Gomes amealhou prêmios dentro e fora do Brasil. Ranulpho, o nordestino que compartilha o caminhão do alemão que faz a vida ao vender o analgésico sertão adentro e afora, revelou João Miguel para um público que talvez não o tenha visto no teatro, a desempenhar um personagem mítico de força colossal: Bispo do Rosário, negro, pobre e louco encarcerado por 50 anos num hospício, cuja redenção se deu pela arte.
“O Bispo foi um preparo longo. A partir dali algo mudou de verdade. Eu tinha 25 anos quando me apaixonei pelo personagem. Vivia uma fase em que fazia perguntas cruciais sobre meu ofício.” Foram quatro anos e meio a maturar o espetáculo. Um processo de dedicação diária. “Visitei partituras de memórias que me ajudaram a entender que eu não queria falar sobre a loucura catalogada, mas sobre a lucidez.”
"Não tenho o vislumbre de me sentir ator. Tem gente que vive do próprio ego, a se carcomer". Foto: Adriana Lorete
A figura do sergipano Arthur Bispo do Rosário (1909-1989), que passou meio século como interno na colônia Juliano Moreira, no Rio, entrou na vida de João Miguel quando ele escrevia para um programa da comunidade afrodescendente baiana, Black TV. “Muitos se decepcionavam ao saber que era eu que fazia o texto, um branco Parmalat, como se diz na Bahia”, diverte-se. Naquele momento, o ator não tinha clareza acerca do que faria com personagem de tamanha envergadura.
“Bispo foi catalogado como esquizofrênico paranoide, viveu num período crucial do Brasil, de ditadura e repressão. Ele se dizia missionário, tinha delírios místicos, não podia pertencer à sociedade. E esse homem ficou 50 anos internado, uma vida inteira em que construiu a partir dos restos de lixo, das linhas que desfiava das colchas. Reconstruiu o próprio entorno como um espaço de arte”, recita João Miguel, o fascínio pelo personagem impresso no olhar. Para Bispo do Rosário, hoje reverenciado como grande expoente da arte, nada do que fazia podia ser classificado como tal. “Estão dizendo que faço arte. Quem fala não sabe de nada. Isto é minha salvação na Terra”, recorda o ator, que até hoje se pega a repetir as falas do monólogo.
oão Miguel revolve a infância à procura do ponto de conexão com o personagem que levaria aos palcos do País. “Visito Bispo do Rosário a partir do que ele me inspira: aspectos de afirmatividade de pessoas da raça negra que passaram por minha vida, porque de alguma maneira eu nasci numa África brasileira, passei boa parte da infância em Itaparica, onde convivi com negros muito fortes, pescadores. O Bispo representava para mim, lá dentro da minha memória, esse tipo de pessoa que foi fundamental na minha formação.”
Representar o místico em seu labirinto criativo mudou a vida do ator. “Este homem construiu uma obra de 950 peças com uma dimensão que sai da catalogação do louco. Num mundo onde nos aprisionam pela catalogação só é possível ser feliz se não nos importarmos com essas rotulações.” O contato profundo com o personagem dinamizou as reflexões do ator sobre os marginalizados. “No Brasil, com essa mistura de culturas e etnias, essas pessoas nos ensinam muito mais que faculdades. Fala-se muito pejorativamente do jeito brasileiro de sobreviver, mas num país em que a raiz é comprometida por tantos interesses que desde o início vieram de fora é difícil entendermos quem nós somos.”
A felicidade de dialogar com a lógica de um artista que considera brilhante foi levada ao Brasil profundo. O que João Miguel vivenciou no périplo de representar em lugares talvez improváveis deixou memórias indeléveis. “Me apresentei em salas pequenas, ouvi coisas lindas de pessoas que nunca haviam visto teatro. No interior de Pernambuco um homem perguntou se o manto que eu usava era do Bispo do Rosário. Ele estava tão envolvido com aquilo tudo a ponto de achar que a roupa era de fato dele. Em Caruaru, uma pessoa me perguntou: ‘Você já enlouqueceu? Tenho medo de enlouquecer.’ Ouvi coisas muito íntimas a partir de um trabalho também íntimo.”
"Ninguém viu meu apogeu. No início de carreira tive a felicidade de me comunicar com o desconhecido"
A parafrasear o amigo Siba, mestre da rabeca, João Miguel comenta, riso solto: “Ninguém viu meu apogeu. No início da carreira tive a felicidade de me comunicar quase com o desconhecido e perceber que isso vai crescendo.” Na gênese de tudo está o garoto, filho de mãe artista plástica e de pai envolvido com teatro político, a desenhar personagens, insuflar-lhes vida por meio de histórias criadas na brincadeira espontânea a durar horas. “Eram quase pequenas sagas.”
Tímido, João Miguel descobriu cedo o espaço do jogo, da brincadeira, da representação. A irmã foi sua primeira espectadora. Depois vieram conhecidos, encantados com o pequeno criador de histórias. Aos 11 anos, foi levado para participar do programa de tevê Bombom Show, protagonizado por crianças. “Entrevistei pessoas como irmã Dulce, Glauber Rocha e Dadá Maravilha. Eu encarava aquilo como uma extensão do que já fazia em casa.”
Dos 14 aos 17 anos, integrou o grupo teatral Tantas e Tamanhas, em que protagonizou sua primeira peça, A Viagem de um Barquinho. “Venho de uma geração que viveu uma pulsação cultural muito forte em Salvador, a congregar todas as linguagens, música, cinema, teatro, literatura, artes plásticas. Isso tudo de alguma forma estava no inconsciente da cidade.” Aos 18 anos, assumiu o desafio do ofício. Fez as malas e chegou ao Rio sozinho. “Era quase um outro país.” Alugou um quarto em Botafogo e foi estudar teatro na Casa de Arte Laranjeiras.
Ali surge o personagem sem o qual nenhum dos outros existiria. O palhaço Magal, como os amigos mais chegados o chamam. “O palhaço, de início, era a ponte com a criança, com a possibilidade de trazer a infância ao agora, não como uma coisa nostálgica, mas algo a se conectar com força no presente, a se permitir desnudar-se, não ter medo do ridículo, da espontaneidade, do inconsciente. É a possibilidade de você existir do jeito que você é.”
Do palhaço ao Bispo, deste ao cinema, tudo foi sendo construído ao longo do grande jogo em que a forte intuição é aflorada pelo trabalho. Para João Miguel, vida emocional, crenças, procuras, tudo vem misturado ao fazer de ator, no caso dele um assumido apaixonado por gente. “Todo mundo tem histórias para contar. Conto as que posso. Não saber exatamente como isso se dará me interessa muito. Viver em desafios, entrar em processos de criação, se permitir o abismo. Quando faço uma cena, de alguma maneira é uma morte e um nascimento de algo.”
Ao deixar o palco e se abrir para “a chegança de uma linguagem nova, o cinema”, João Miguel sentiu o tranco. Em especial em Cinema, Aspirinas e Urubus. “No primeiro momento foi abismal. Fiquei muitos dias sem dormir e cheguei para o Marcelo e disse que não dava para fazer isso sempre, pede uma energia sobrenatural.”
Para o intérprete, o personagem nasce do corpo, o grande armazenador de memórias. “O gesto vem daí, não da cabeça.” Em Estômago (2007), direção de Marcos Jorge, ele misturou vários sotaques nordestinos num só personagem, Alecrim. “Para mim aquele cara era um imigrante que pode ser de qualquer interior do mundo.” O ator indagou o diretor sobre o motivo de o personagem principal ser do Nordeste. “Ele pensava num nordestino como referência de pessoas hábeis na cozinha. Em São Paulo, todos os chefes são cearenses e às vezes eles viram japoneses”, brinca. “Acho incrível essa possibilidade de ser influenciado e não perder a essência.”
Em 2011, João Miguel viveu uma experiência inédita: interpretou o cangaceiro Belarmino na novela global Cordel Encantado. “O personagem me atraiu muito, um cangaceiro feminino e farsesco, a fazer a ponte entre o esconderijo do bando e a cidade. Tudo muito a ver com o palhaço.” Belarmino, a cada momento um disfarce, caiu no gosto do público. “Foi bacana aceitar. É uma indústria e cheguei com respeito.”
Neste ano João Miguel fez Xingu, de Cao Hamburger. “Foi incrível, pois Claudio Villas-Boas era um homem notável. E no caso de um personagem real todos o verão de acordo com a sua leitura.” Agora, acaba de sair da pele de João, caminhoneiro que foge de uma história perturbadora em À Beira do Caminho, drama dirigido por Breno Silveira que ganhou seis prêmios no 16º Filme PE. “Eu me acabei nesse filme, chorei como em nenhum outro na vida.”
Para um homem sempre atento em calibrar a medida do ego, uma carreira internacional não exerce fascínio. Em especial nos Estados Unidos. “Não tenho esse vislumbre. Sonhar no Brasil já é muita informação.” Admirador de José Dumont, “um gênio que influenciou muito minha geração”, de Marcelo Mastroianni, Al Pacino e Robert de Niro, Ângelo Antônio, Leandra Leal, Julio Andrade, Lila Guedes e William de Santis, João Miguel jamais perde de vista as origens. “No lugar onde nasci tinha o mundo, o universo.” Dali ele saiu e ali ele sempre retorna, feliz com o privilégio de representar muitos e ainda continuar a ser ele mesmo
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