domingo, 18 de março de 2012

GAROTA. Há 50 anos pelo mundo

Clássico de Tom e Vinicius já não é mais tão gravado em português
ROBERTA PENNAFORT / RIO - O Estado de S.Paulo
 
      "Vinha cansado de tudo/de tantos caminhos/tão sem poesia/tão sem passarinhos/com medo da vida/com medo de amar", escreveu Vinicius de Moraes para a melodia de Tom Jobim, sobre uma certa moça de corpo dourado de Ipanema. "Quando na tarde vazia/tão linda no espaço/eu vi a menina/que vinha num passo/cheio de balanço/caminho do mar", seguiu, para depois jogar o papel fora e recomeçar, trocando o título Menina Que Passa por Garota de Ipanema.
      O mundo inteiro se encheu de graça há 50 anos, quando a dupla apresentou a garota num pequeno show em Copacabana, com João Gilberto e Os Cariocas. Em 63, Pery Ribeiro a lançou em LP. Em 67, Frank Sinatra a gravou com Tom. A partir daí, The Girl From Ipanema bateria a da língua de Vinicius: são 1.517 gravações em inglês contra 430, segundo a Universal, editora da faixa.
      O manuscrito dos versos originais, soturnos demais para a leveza da música, foram guardados por Tom para a posteridade. Poucos os conhecem. Já a versão solar que traduz o encantamento dos dois pela bela jovem Heloisa Eneida Paes Pinto, que passava por eles indo à praia, daria a Tom, Vinicius e seus herdeiros (cinco cada) o maior rendimento de direitos autorais de todo o seu cancioneiro.
      Dez anos atrás, estimava-se que o valor anual fosse de R$ 500 mil, dividido pelos dois. Nem o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), nem a Universal, tampouco as duas famílias divulgam a cifra atual. Segundo Maria Gurjão de Moraes, caçula de Vinicius, é bem mais baixa. "Garota de Ipanema está entre as músicas mais rentáveis, por sua popularidade. Mas os valores caíram mais de 70% na última década. Direito autoral não representa mais uma fonte grandiosa de receita para quase nenhum compositor."
A Universal conta mais de 800 produtos contendo a música, do disco de vinil ao DVD, de Stan Getz a Alexandre Pires. O brasileiro aprendeu que ela é uma das mais conhecidas do mundo. Só que no Brasil sua execução não é tão relevante, pelo menos quando se olham os dados do Ecad: está em 40.º no ranking dos últimos cinco anos, o qual vem liderando os sertanejos Victor Chaves e Sorocaba.
      Entre os artistas estrangeiros, já esteve mais em alta. Ana Lontra Jobim, viúva de Tom, conta que os pedidos de gravação e versão têm chegado mais para Corcovado, Samba de Uma Nota Só e Águas de Março.
      Na hora de aprovar ou não, ela analisa as propostas sem levar em conta o gosto pessoal, e age em harmonia com as filhas de Vinicius. "Eu penso: o Tom aprovaria ou não? Uma música como essa não se desgasta. A obra tem que seguir."
      Ana conta que os repasses são muito variáveis. Em 97, quando a Brahma fez uma propaganda de cerveja ao som de uma versão funkeada do clássico, com o então atacante em ascensão Ronaldo correndo "num doce balanço a caminho do gol", os herdeiros receberam R$ 300 mil.
      Caso a família Jobim ganhe o processo contra a Universal Musical Publishing que move nos Estados Unidos pela recuperação dos direitos dessa e de outras cinco músicas, em parte perdidos para o versionista Norman Gimbel, os dividendos devem subir. A mediação sairá em breve. "Foi uma coisa arbitrária, por debaixo dos panos. Não é o dinheiro, é a questão moral."
      Para quem ainda não viu: o documentário A Música Segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, neta de Tom, traz uma sequência deliciosa onze gravações, sendo a mais pitoresca La Ragazza di Ipanema, sucesso da cantora italiana Mina de 68.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Virou manchete!

Por Alberto Villas
Carta Capital

      Coleciono manchetes. Não, não se trata da extinta revista dos Bloch. São manchetes de jornais e revistas. Desde pequeno. Lembro-me que a primeira que guardei foi uma da Fatos & Fotos em 1966 quando só se falava em tri. A seleção Brasileira foi bi no Chile em 1962 e todos tinham certeza que o Brasil traria o tri de Londres. Depois do vexame, a Fatos & Fotos saiu com a manchete de capa: “A volta dos bi-campeões”. Foi aí que comecei a guardar manchetes. Inteligentes, boas, curiosas, bem sacadas, engraçadas, estranhas.
      Manchetes estranhas minha coleção tem muitas. Essas aí abaixo foram tiradas da Folha de S.Paulo, do Estadão, do Valor, do Globo e do saudoso Jornal do Brasil. Acredite.
USP ACHA ÁREA CEREBRAL DO MEDO PRIMITIVO
BALANÇO DOS PINGUINS ECONOMIZA ENERGIA
BERÇO DA CELEBRAÇÃO DO HEDONISMO SULISTA
SAFRA DE FUMO MENOR RENDE 10% A MAIS
BRASIL NÃO TEM VACA LOUCA
ZÉ CELSO COLOCA DECANO DO ÓCIO NO CIO
POESIA DE MARIA CARPI BEBE DO SÉCULO NUM SORVO SÓ
MORRE PACIENTE ATACADA
LIMOEIRO FINCADO EM AEROPORTO CRIATIVO
BRASIL NÃO ACEITA MAIS NEGOCIAR COM CAVALLO
A MULHER IDEAL É FEITA DE PRATA E COME ROSAS
CLIMA HULA-HULA PARA HAPPY HOUR COM CLIENTES
MULHER FAREJA GENES DO PAI EM CAMISETAS DE DESCONHECIDOS
JAPONÊS, TELEFONE E BARATA VIVERAM O MESMO DRAMA
      Sim, essas manchetes são verdadeiras e um dia foram impressas. As duas últimas que guardei vieram da primeira página do Globo que anda muito engraçadinho. Quer saber o título que deram para o garçom que derrubou quatro copos de cerveja em Ângela Merkel?
LOIRA GELADA
      A outra foi quando o aeroporto Tom Jobim ficou às escuras após a pane em duas linhas de transmissão de Furnas, causada por uma poda de árvores no Médio Paraíba. A manchete?
FOI PODA
      Mas confesso que as melhores manchetes, as imbatíveis, continuam sendo as do telejornal Aqui Agora que tanto sucesso fez na década de 1990. Lembro-me muito bem que, para uma reportagem sobre o nascimento de seis veadinhos no Simba Safari veio o manchete:
BICHARADA EM FESTA! AUMENTA O NÚMERO DE VEADOS EM SÃO PAULO
      No dia em que um furacão varreu Miami, a manchete que surgiu foi:
FURACÃO NA FLÓRIDA! MIAMI VAI-SE!
      Um homem sem dinheiro no bolso forjou um sequestro e pediu ao sogro rico que depositasse o resgate em sua conta. A manchete?
SEQUESTRADO O HOMEM MAIS BURRO DO MUNDO
      No dia em que os soldados do Tio Sam chegaram à Bósnia para enfrentar uma guerra cruel, não deu outra:
É GUERRA! AMERICANOS PISAM NA BÓSNIA!
      Quando chegaram as eleições nas Filipinas, mesmo não sendo a favorita, a manchete do Aqui Agora foi:
ELEIÇÕES NAS FILIPINAS! VAI DAR IMELDA!
      Mas a melhor manchete mesmo saiu quando o repórter Carlos Cavalcante foi cobrir uma manifestação de estudantes na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Os alunos protestavam contra o aumento da mensalidade e na confusão acabaram dando uma paulada na cabeça do pobre repórter. E lá vem a manchete:
REPÓRTER DO AQUI AGORA LEVA PAU NA FACULDADE DE JORNALISMO!

terça-feira, 13 de março de 2012

Eu te dedico

Por Alberto Villas, Carta Capital

      Confesso que sou rato de sebo. Meu vício começou no início dos anos 70 nas ruelas do Quartier Latin, em Paris. Foi lá que percorrendo os porões da livraria Joie de Lire descobri as edições originais com os primeiros poemas de Ernesto Cardenal. Foi na Shakspeare and Company que tive o prazer de conhecer aquelas edições maravilhosas das obras de Ezra Pound. Foi lá também que arrematei alguns exemplares amarelados cheirando a mofo da National Geographic americana. Era lá que, ao cair da tarde, costumava tomar um chá preto ao lado de George Whitman, que não tirava os olhos do New York Review of Books, sua paixão.
      Em São Paulo e no Rio já percorri todos, creio. Cada um mais curioso que o outro. Alguns já informatizados e outros ainda bastante desorganizados, como eu gosto. Já corri sebos pelos quatro cantos do mundo. Um dia em Veneza trombei com um livro de Luiz Fernando Emediato e outro sobre a vida de Zé Arigó. Foi em Lisboa que comprei um compacto-simples de Zé Keti com a gravação original de A Voz do Morro. E foi em Les Andellys, no interior da França, que paguei um punhado de euros por um Henri Salvador cantando Juanita Banana. O vício não me deixa passar uma semana sem entrar num sebo. Seja para namorar aquela coleção da Placar dos anos 70 no Red Star de Pinheiros ou para admirar os volumes impecáveis do Tesouro da Juventude no Sebo do Messias.
      Nos últimos tempos minha diversão tem sido caçar dedicatórias, um capítulo a parte nessa aventura de percorrer sebos. Outro dia encontrei num exemplar de Teorema, de Pier Paolo Pasolini, a seguinte dedicatória: “O teorema é legal, o teorema é tudo, sou eu, é você, tudo que vejo e o que não vejo. O teorema está solto na vida, vagando, pensando, sendo”. Quem teria escrito essa equação hiponga em 1970 e para quem?
      Num velho exemplar de Fazenda Modelo, de Chico Buarque, encontrei o seguinte: “Laura, essa terra ainda vai tornar-se uma imensa fazenda modelo”. Onde andará Laura? E que fim levou a nossa fazenda modelo? Que motivo teria levado Laura a se desfazer de tão raro exemplar? Por que o livro do Chico foi parar nesse galpão na Praça João Mendes?
      Num livro de poemas de Drummond, alguém escreveu: “José, e agora? Paixão”. Mas as grande paixões mesmo estão perdidas, sem dúvida, nas capas dos vinis de Maria Bethânia, Simone e Gal Costa. “Amor, não vou assinar essa dedicatória, mas saiba, eu sou o seu pássaro proibido!”, escreveu alguém na capa do Pássaro Proibido. No disco Cigarra, de Simone, um certo Luiz Gustavo escreveu apenas “Zi zi zi zi zi zi zi… Te amo!” No Caras e Bocas da Gal Costa, Mauro caprichou na letra: “Ana, com um beijo do teu primeiro amor”. Teria sido Mauro o primeiro amor de Ana? E porque será que Ana abandonou o Caras e Bocas nesse sebo da Lapa?
      No dia 25 de dezembro de 1987, alguém ganhou de Natal da Dri A Volta do Parafuso, de Henry James, com a seguinte dedicatória: “Tomara que a gente sempre fique dando voltas junto no parafuso da vida”. O tempo fechou para a Fátima, que deu de presente a Kristina o livro Bruxaria no Pé de Feijão, de Maria Helena Coelho: “Os tempos mudaram, mas há muito tempo não acontece nada”, disparou ela na dedicatória.
      Há vinte e cinco anos, Mônica deu de presente a José Antônio o Livro dos Sonetos, de Vinícius de Moraes, com a seguinte dedicatória: “Ao meu amor, um simples incentivo para que você sempre ganhe as nossas apostas”. Que apostas? Bruno Andreucci, autor do livro Versos que guardei, mandou os seus poemas para o Silvio Vernosa. O Silvio não guardou os versos de Bruno e o livro foi parar num sebo da Avenida São João.
      Não faz muito tempo arrematei num sebo da Freguesia do Ó uma coleção completa da fase áurea da revista Planeta. Dentro de um exemplar, um papel envelhecido trazia um nome e um endereço: Francelina 61 8692. Pensei em ligar só por curiosidade. Inútil, pois esse número não há mais. Talvez nem mesmo Francelina haja mais.
      Se você gosta de bisbilhotar dedicatórias dê um pulinho no site http://eutededico.tumblr.com/ que fiquei conhecendo hoje. Você vai se divertir, você vai se emocionar.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O poema do semelhante

Elisa Lucinda

O Deus da parecença
que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza
em sentimento
que nos pluraliza
que nos banaliza
por baixo e por dentro,
foi este Deus que deu
destino aos meus versos,

Foi Ele quem arrancou deles
a roupa de indivíduo
e deu-lhes outra de indivíduo
ainda maior, embora mais justa.

Me assusta e acalma
ser portadora de várias almas
de um só som comum eco
ser reverberante
espelho, semelhante
ser a boca
ser a dona da palavra sem dono
de tanto dono que tem.

Esse Deus sabe que alguém é apenas
o singular da palavra multidão
É mundão
todo mundo beija
todo mundo almeja
todo mundo deseja
todo mundo chora
alguns por dentro
alguns por fora
alguém sempre chega
alguém sempre demora.

O Deus que cuida do
não-desperdício dos poetas
deu-me essa festa
de similitude
bateu-me no peito do meu amigo
encostou-me a ele
em atitude de verso beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo:
a solidão da bravura
a solidão do medo
a solidão da usura
a solidão da coragem
a solidão da bobagem
a solidão da virtude
a solidão da viagem
a solidão do erro
a solidão do sexo
a solidão do zelo
a solidão do nexo.

O Deus soprador de carmas
deu de eu ser parecida
Aparecida
santa
puta
criança
deu de me fazer
diferente
pra que eu provasse
da alegria
de ser igual a toda gente

Esse Deus deu coletivo
ao meu particular
sem eu nem reclamar
Foi Ele, o Deus da par-essência
O Deus da essência par.
Não fosse a inteligência
da semelhança
seria só o meu amor
seria só a minha dor
bobinha e sem bonança
seria sozinha minha esperança

segunda-feira, 5 de março de 2012

5 de março de 2012: 125 anos de Heitor Villa-Lobos


Fonte: Jornal do Brasil


Heitor Villa-Lobos. Reprodução
"A música folclórica é a expansão, o desenvolvimento livre do próprio povo expresso pelo som". Villa-Lobos
      Heitor Villa-Lobos nasceu na Cidade do Rio no dia 5 de março de 1887. Levado pelo pai a estudar instrumentos musicais, aos 13 anos já fazia parte de grupos seresteiros. Em 1905, viajou pelo Brasil, em busca das raízes folclóricas, de onde tiraria inspiração. Por volta de 1913, deu início à sua produção, sob influência de Debussy. Em 1922, participou da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, e, no ano seguinte, viajou para Paris. Em 1930, famoso na Europa, voltou para o Brasil.
      Preocupado com o desenvolvimento artístico do país, Villa-Lobos percorreu o interior em caravanas culturais. Dono de 12 sinfonias, 17 quartetos para cordas, concertos para piano e orquestra, além de óperas, como Malazarte (1921), morreu em sua cidade natal, no dia 17 de novembro de 1959, aos 72 anos de vida, após meses de sofrimento decorrentes de uma grave uremia.
      Em seus últimos dias, as mãos que regeram com maestria tantas sinfonias estavam trêmulas e fracas.


domingo, 4 de março de 2012

A Itália chora a morte do genial Lucio Dalla

Gianni Carta, Carta Capital


Mito na Itália e reconhecido mundialmente, as canções do músico falecido na Suíça na quinta inqueitavam e, ao mesmo tempo, fascinavam. Foto: AFP

      Com sua voz forte e original, ele (Lucio Dalla) contribuiu para renovar e promover as músicas italianas no mundo.” Palavras de Giorgio Napolitano, presidente da Itália, onde o músico e compositor Dalla é um mito.
      Dalla morreu de ataque cardíaco na quinta em Montreux, Suíça, durante um tour europeu. Tinha 68 anos (69 no domingo), e parecia estar em grande forma. Duas semanas antes de ir a Montreux ele havia arrancado calorosos aplausos da plateia do célebre Festival de Canção de Sanremo com sua música Nani.
      Foi em Sanremo, aliás, que sua carreira de mais de 40 anos teve início, em 1971, com Gesù Bambino. A canção foi censurada porque alerta que a mãe de Jesus era solteira. Impassível, o artista resolveu rebatizá-la com a data de seu aniversário, 4/3/43. Minha História é a versão de 4/3/43 de Chico Buarque.
      Nascido em Bologna, Dalla, que em 2008 veio cantar no Brasil, vendeu milhões de discos mundo afora. Era um músico eclético, capaz de mesclar folk, jazz e música clássica. Compunha canções anticonformistas e usava uma linguagem coloquial. Dalla inquietava, e, ao mesmo tempo, fascinava.
      Caruso, para numerosos experts sua canção mais famosa, foi cantada em 1992 por Luciano Pavarotti em um concerto em Modena. Sucesso total: mais de 9 milhões de discos foram vendidos mundo afora.
      Dalla também compôs para diretores de cinema como Mario Monicelli, Michelangelo Antonioni, Michele Placido e Claudio Verdone. O músico, que iniciou sua carreira como clarinetista do grupo Flippers, aos 20 anos, era também saxofonista e tecladista. Todas as formas de arte o interessavam. Era, por exemplo, curador de uma galeria de arte contemporânea em Bologna.
      Disse o cantor Eros Ramazzotti: “Ele foi um dos melhores”. Na sua conta no Twitter, Laura Pausini exprimiu o sentimento de todos os fãs de Dalla: “Não consigo acreditar nessa notícia”.